domingo, 12 de julho de 2015

A lenda da "Jus Primae Noctis"


O Direito da Primeira Noite, "foi uma alegada instituição que teria vigorado na Idade Média, permitindo ao Senhor Feudal, no âmbito de seus domínios, desvirginar uma noiva na sua noite de núpcias." (Wikipedia)

Lenda ou não, infelizmente vemos atos de barbaridade similar sendo cometidos nos dias de hoje. Segundo uma lenda urbana, existe uma igreja nada pequena situada nas Minas Gerais, onde o Senhor daquele feudo religioso também exerce o seu "Direito da Primeira Noite". Contudo, não se trata de um direito à virgindade das noivas; trata-se do "direito feudal" de falar aos noivos em sua primeira noite como casados.

Se na lenda medieval, a noiva era fisicamente violentada, na lenda urbana o dano é causado no psicológico dos noivos. "Quem é este que não nos conhece e de maneira tão impessoal vem falar em nosso dia tão especial?" A barbárie é cometida e aplaudida por vassalos daquele senhor do feudo religioso, sem o mínimo de senso crítico. Nem mesmo as lágrimas e decepção dos pobres noivos são respeitadas. As piadas toscas, as historinhas para-boi-dormir, uma leitura  bíblica com cara de "esse camarada não estudou o texto e inventou uma leitura sem sentido para falar de última hora", dentre outros abusos que são assistidos com empatia por uns e antipatia por outros.

Lendas ou não, estas história falam de homens que se apoderam, sem direito, da vida de outras pessoas. Homens que menosprezam os desejos alheios, pois só enxergam seus próprios desejos: bajulação e prestígio, ainda que forçados. Como poderia esquecer as noivas da lenda medieval, daquele a quem a deflorou, contra a sua vontade? Como poderão os noivos se esquecer daquele personagem tão distante de sua realidade que veio lhes dar um sermão tão impessoal?

O feudalismo chegou ao seu fim quando as redes comerciais se ampliaram, o sistema de trocas foi sendo substituído pela moeda, o surgimento da burguesia e, assim, o feudo ficou pequeno demais para a população: a visão de mundo dos vassalos medievais ampliou-se e, com isso, o poder do senhor feudal foi diminuindo até cessar-se. De igual modo, o poder do senhor do feudo religioso acaba quando seus vassalos religiosos ampliarem sua visão de mundo, buscando uma maior compreensão sobre Deus, sobre a religião e o papel da Igreja no mundo. Quando isso acontecer, o feudo religioso acaba e outros noivos não serão mais violentados por velhos asquerosos e ensimesmados. Então, essas histórias serão apenas lendas, distantes da futura realidade vivida entre os homens.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Protestantes históricos e pentecostais: como se relacionar de maneira saudável?


Existe entre uma parcela de cristãos, certa confusão acerca dos dons conferidos pelo Espírito Santo de Deus à Igreja. Muitas vezes é percebido que esta confusão se dá principalmente nas igrejas pentecostais. No contexto brasileiro o cristianismo protestante se diversificou, ramificando-se em segmentos cada vez menores, e mais distantes de sua raiz histórica em busca de acompanhar os movimentos carismáticos que emergiam nos Estados Unidos. Muitos destes novos segmentos aderiram ao pentecostalismo. Mas qual pentecostalismo?

Sim, há mais de um. O pentecostalismo pode, e deve, ser compreendido como um movimento heterogêneo, como suas muitas percepções e divergências internas. Segundo o sociólogo Paul Freston, "O pentecostalismo brasileiro pode ser compreendido como a história de três ondas de implantação de igrejas. A primeira onda na década de 1910, com a chegada da Congregação Cristã (1910) e da Assembleia de Deus (1911). A segunda onda pentecostal ocorreu nos anos 50 e início de 60, na qual o campo pentecostal se fragmenta, a relação com a sociedade se dinamiza e três grandes grupos (em meio a dezenas de menores) surgem: a Quadrangular (1951), Brasil Para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). O contexto dessa pulverização é paulista. A terceira onda começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos 80. Suas principais representações são a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) (...) O contexto é fundamentalmente carioca” [1].

Cada uma dessas ondas, como indicado por Freston, possui suas características. A primeira onda, o Pentecostalismo Clássico, é marcada por ter sofrido discriminação dos protestantes históricos e perseguição da Igreja Católica desde a chegada deste pentecostalismo no Brasil. Isso gerou entre eles um ferrenho anticatolicismo. A reflexão bíblica das igrejas da primeira onda resulta em uma ênfase no dom de línguas como evidência do batismo no Espírito Santo (também chamado de "segunda bênção"), na crença na volta iminente de Cristo, na crença na salvação paradisíaca e num ascetismo de rejeição do mundo exterior. De modo geral, são radicalmente sectários.

A segunda onda, o Deuteropentecostalismo, chegou ao Brasil através da Foursquare International Gospel Church, trazendo ao país o evangelismo de massa. Sua teologia enfatiza a centralidade da mensagem na cura divina e cresceu sobremaneira por meio de campanhas em prol de conquistas de cura, finanças, etc. Difundiram-se pelo rádio, por evangelismo itinerante em tendas de lona, de concentrações em praças públicas, estádio de futebol, teatros, etc.

A terceira onda, o Neopentecostalismo, é marcada pela participação ativa na política partidária, com uso intenso dos meios de comunicação em massa para propagação de suas ideias, bem como a manutenção de estrutura empresarial para administração dos templos. Além disso, estas igrejas incorporam o uso de técnicas de marketing para a indução a doações (teologia da prosperidade). A reflexão bíblica dos neopentecostais faz com que sua mensagem gire em torno da função terapêutica baseada na cura divina, nos rituais de exorcismo (“guerra santa”), nos cultos propensos á catarse individual e coletiva, de modo a estimular a expressividade emocional em ritos de cura e exorcismo. O neopentecostalismo também é marcado pelo antiecumenismo e forte oposição aos cultos afro-brasileiros.

Em sua maioria as igrejas que surgiram entre a segunda e terceira onda, nasceram a partir de conturbadas cisões. Segundo o IBGE a cada dia doze novas denominações abrem suas portas. Nas comunidades deste bloco que vai da segunda à terceira onda, há grande apelo para uma interpretação literalista da Bíblia e o estudo da Teologia é desincentivado por seus líderes. Exemplo disso é o livro "A libertação da Teologia", de autoria do líder da IURD, Edir Macedo.

Contudo, vale destacar que é um engano dizer que as igrejas carismáticas são ateológicas, de modo a generalizar os pentecostais. Há, principalmente nas igrejas da primeira onda, certo incentivo ao estudo teológico. Ainda que este estudo seja estritamente confessional àquela comunidade de fé.

Fato é que as igrejas pentecostais surgiram em comunidades carentes, para atender as demandas religiosas de pessoas muitas vezes não alcançadas pelas igrejas históricas. Estas últimas que, tradicionalmente, foram estabelecidas, salvo raras exceções, em bairros mais centrais ou mais ricos. O apelo proselitista pentecostal, seu carisma receptivo, sua proposta religiosa e terapêutica, fez com que se tornasse o maior grupo religioso dentre os protestantes, superando em número de membros os protestantes históricos. Até mesmo os cristãos católicos sofreram perda de membros para as igrejas pentecostais. Algumas igrejas se tornaram carismáticas, em busca de se manterem vivas.

O relacionamento protestantes históricos/pentecostais sempre foi conturbado. Os protestantes históricos sempre olharam desconfiados para a interpretação bíblica feita pelos protestantes pentecostais. Por sua vez, os pentecostais desconfiavam da seriedade dos protestantes históricos em relação ao entendimento do Espírito Santo e sua manifestação na Igreja. As principais divergências de pensamento entre os dois grupos se dão em relação à teologia aplicada em suas igrejas, tendo a interpretação em relação aos dons espirituais como cerne. Mas como interpretar os dons espirituais? Sola Scriptura.

Sendo todos os protestantes, tanto históricos quanto pentecostais, filhos da Reforma Protestante do século XVI, o conceito da primazia das Escrituras deve ser mantido para interpretação dos dons espirituais. Para Terence Paige, "as comunidades cristãs primitivas tinham o Espírito em seu meio, na percepção da imanência de Deus durante o culto, na realização de milagres e na inspiração da profecia, na experiência de coragem e sabedoria para anunciar o evangelho, mesmo em circunstâncias difíceis, e nos sentimentos de alegria. Para os cristãos primitivos, essas experiências eram provas de que o Espírito estava presente e atuante" [2]. Para não delongarmos muito sobre o assunto, os dons espirituais devem ser compreendidos como a capacitação do Espírito Santo à Igreja no cumprimento da anunciação do Evangelho, em tarefas onde o homem se encontra incapaz de realizá-la por si só; e também como a forma pela qual Deus age na regeneração do Ser Humano.

Como, então, a igreja histórica pode se relacionar, de forma saudável, com os pentecostais?

Não é tarefa fácil. Mas também não é impossível. Para todo relacionamento entre pessoas de pensamentos distintos, deve-se prevalecer em primeiro lugar o respeito pela diferença. Deve-se, ainda, celebrar a diversidade, pois estamos todos fazendo a mesma coisa: Estamos interpretando as Escrituras, cada um de nós com sua especificidade. Um exemplo de tentativa de convivência sadia é visto em igrejas como a Igreja Presbiteriana Unida (IPU). Essa igreja tem em sua carta fundante (o Manifesto de Atibaia) o incentivo ao "diálogo e comunhão uns com os outros" [3], e orientação para o ecumenismo [4]. A dificuldade neste processo se dá ou no momento em que o diálogo se torna proselitista e o ecumenismo é estritamente utilitarista para esta finalidade, ou quando o respeito e comunhão se acontecem apenas quando as igrejas estão separadas, histórica de um lado e pentecostais de outro, cada uma em seu canto. "Eu cá, eles lá". Isso não é relacionamento saudável. Nem mesmo é relacionamento.

Por fim, as barreiras para esta convivência sadia estão mais ligadas às especificidades de cada grupo. Necessário é descobrir quais são as dificuldades individuais das igrejas para que o espaço de diálogo seja experimentado e respeitado. Isso com a consciência de que, no processo de aproximação entre cristãos históricos e pentecostais, a verdade de um não anula a verdade do outro. E convenhamos: Saber dialogar nestes dias, em que as paixões - principalmente as políticas - estão tão afloradas e efervescentes, é uma arte!

1 - MARIANO, Ricardo. “Neopentecostais”: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
2 - HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (orgs.). “Dicionário de Paulo e suas cartas”. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
3 - Manifesto de Atibaia, 10 de setembro de 1978.
4 - Princípios de Fé e Ordem da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. Artigo 3º, Parágrafo "E".

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Entre a Cruz e a transexual



A imagem da transexual junto a cruz durante a última Parada do Orgulho LGBT, chocou muita gente. Muitos sentiram-se ofendidos pela forma a qual Viviany Beleboni saiu durante o evento, tendo em vistas um possível modo de ofender o símbolo maior da fé cristã, a Cruz de Cristo. Ofensa ou falta de poesia? Eu diria que faltou poesia na leitura feita por alguns.

Na antiguidade a cruz era utilizada como forma de punição para criminosos, expondo-os á tortura e vergonha. Após Cristo ser condenado á morte numa cruz, ela tornou-se símbolo sagrado para os seguidores de Jesus. Segundo a tradição Católica, Pedro teria se negado a crucificado como Cristo, por entender-se como indigno de morrer do mesmo modo que seu salvador.  E assim, fora crucificado de cabeça para baixo. De morte maldita (Dt 21.23), a crucificação tornou-se uma rememoração aos cristãos do sacrifício salvífico de Cristo. Sacrifício gerador de perdão e reconciliação de Deus com toda a humanidade. A cruz é sinal de esperança naquele que passou por ela e a morte venceu.

Ao subir numa cruz, Viviany lembra-nos de maneira poética que existe uma realidade duramente vivida pelos gays em nosso país: eles são feitos malditos todos os dias. E muitas vezes isso é feito por gente religiosa; gente tão merecedora da Cruz de Cristo quanto a transexual da Avenida Paulista. Sim, há falta de diálogo, falta de empatia, falta de Graça e de amor para com a população gay. Há também desrespeito velado e explícito, além de muita perseguição. Ao subir na cruz, Viviany lembra-nos, ainda que inconsciente, que todo aquele que sofre encontra em Jesus um semelhante. Lembra-nos que foi gente religiosa que pediu a crucificação de Jesus, do mesmo modo como gente religiosa crucifica dia após dia os gays no Brasil. Lembra-nos que existe entre a Cruz e uma transexual, um enorme muro de preconceito que vitimiza pessoas a quem Deus ama. Com bem disse Isaac Newton, "construímos muros demais e pontes de menos".

Em toda viagem que faço e encontro uma cruz grande, seja numa praça ou igreja, faço questão de tirar fotos comigo nela pendurado. Coisa minha, sabe? Acaso Viviany é menos merecedora do símbolo da cruz, enquanto símbolo de libertação de opressão e de opressores? É menos merecedora de ir á Cruz em busca de esperança do que todos nós? Creio que não. É para Cruz que todos devemos correr. Afinal de contas, foi o próprio Jesus quem disse "venham a mim, todos os que estão cansados e oprimidos, e eu os aliviarei." Que não sejamos pedra de tropeço para que as pessoas não cheguem á Cruz!

A vergonha exposta na cruz de Viviany, não foram suas próprias vergonhas, mas a vergonha da Igreja. Sim, o modo o qual a Igreja brasileira (em sua maioria) trata os gays é vergonhoso. E esta vergonha foi exposta na Avenida Paulista para que todos pudéssemos ver, encarando nossa face no espelho que Viviany nos deu. Quem me dera que depois de três dias de reflexão após essa cruz, todos nós cristãos pudéssemos ressurgir com uma nova mentalidade em relação a comunidade gay de todo o mundo.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Páscoa de Maria Madalena


Perguntou-lhe Jesus:
Mulher, por que choras? Quem procuras? 
Supondo ela que fosse o jardineiro, respondeu:
Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar.
João 20:15

Ser cristão significa, basicamente, ser um pequeno Cristo. Isso significa que Cristo é, além de Deus, um modelo á ser imitado (Ef 5:1), um segundo-primeiro Homem o qual devemos nos assemelhar (1 Co 15:45). Sendo assim, somos seus seguidores.

Mas não precisa fazer um grande levantamento para constatar que há vários tipos de seguidores de Jesus. Alguns o seguem como resposta ao enigma que é a morte. Outros em busca de receber uma dádiva. Há ainda aqueles que enxergam que Deus é a fonte de alegria e amor.

Jesus identificou um tipo de seguidores que encontramos com certa facilidade em nossos dias, os que se interessam apenas pelos benefícios:

"Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos." - João 6:26

Identificou ainda um outro tipo, os que o seguem por gratidão:

"E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos... Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor." - Lucas 7:44; 47.

O Evangelho de João narra que na manhã do domingo de Páscoa, Maria Madalena foi ao sepulcro de Jesus. Tendo o encontrado a pedra removida foi em busca de auxílio. Pedro e João foram ao túmulo e ao constatar que o corpo não estava lá regressaram para suas casas.

Maria, no entanto, continuou a procurar pelo corpo. Dois anjos lhe perguntam a razão de seu choro e ela responde: "Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram" (Jo 20:13). Seu choro e busca foram tão sincero que o próprio Jesus aparece, pois "ao coração quebrantado e contrito não desprezas, ó Deus" (Sl 51:17).

Ao ser questionada por Jesus, ela torna a responder, talvez em meio as muitas lágrimas e soluços: "Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar". Jesus lhe chama pelo nome, e ela reconhendo aquela voz, responde: "Mestre!". Pois, "conheço as minhas ovelhas; e elas me conhecem" (Jo 10:14).

Maria é um verdadeiro exemplo de seguidor sincero de Cristo. Ela buscou Jesus mesmo quando ele já não podia fazer mais nada por ela. Seguimos á Cristo sinceramente quando nos tornamos como a pecadora perdoada, que mesmo diante do Jesus morto, que já não podia mais lhe tornar próspera, lhe dar o pão e realizar milagres, continuou a buscá-lo em meio as muitas lágrimas (Jo 20).

Àquela Páscoa de Maria Madalena foi diferente. Se na festa anterior a comemoração havia sido sobre a libertação da escravidão egípcia, agora festa era pela libertação do pecado, para a liberdade: "É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou" (Gl 5.1) e, também, para nos inserir na família de Deus: "Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus". Feliz Páscoa!

"Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós" 1 Coríntios 5:7

(Repostagem de abril de 2012)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Redução da maioridade penal: o Primeiro de Abril que se antencipou


Neste ano de 2015 o "Primeiro de Abril" chegou mais cedo; chegou um dia antes. Chegou com uma notícia que parecia ser típica pegadinha (de péssimo gosto, diga-se de passagem) de Primeiro de Abril. Chegou trazendo o dessabor que a inverdade traz ao paladar do faminto, amargando a vida de quem esperava se deleitar com o mel. Sim, chegou. E parecia mentira. Mentira capaz de afetar a esperança do mais otimista dos homens. Mentira cruel que desfaz sonhos e desmotiva quem ainda espera por ventos melhores. Mas não era mentira; era verdade.

O mês de março despediu-se de nós com a triste notícia de que foi aprovada a PEC 171/93, que trata da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Nosso país é marcado pela ideia de que por aqui a impunição reina absoluta, e que é necessário a criação de leis mais severas, para que a criminalidade seja reduzida. Contudo, não é criando novas leis mais severas que a criminalidade será reduzida. Prova disso é nossa população carcerária, que é a terceira maior do mundo, com mais 700 mil presos - para aproximadamente 350 mil vagas disponíveis. Nem por isso somos concomitantemente o terceiro país com menor índice de criminalidade.

A grande questão quando tratamos de "criminalidade" é "criminalidade de quem?" É sabido que no Brasil a Lei não se aplica a todos. Em recente imagem amplamente divulgada nas redes sociais, era contraposta duas matérias do site G1 onde a manchete "Polícia prende jovens de classe média com 300 kg de maconha" e "Polícia prende traficante com 10 quilos de maconha em Fortaleza". A criminalidade a qual querem encarcerar tem cor e classe social. Ela é em raras exceções branca e com residência em bairros chiques.

"Eu vejo um museu de grandes novidades", cantou Cazuza. E de maneira cíclica a história se repete. Com a abolição da escravatura em 1888, criou-se instantaneamente uma imensa massa de desempregados miseráveis, analfabetos e sem qualquer capacitação profissional que migraram do campo para as cidades habitando em cortiços. Em 1903 o prefeito do Rio de Janeiro Francisco Pereira Passos, inspirado no Barão de Haussmann (França), iniciou um projeto de reforma urbana desalojando os recém-libertos, que para se manterem próximo aos seus empregos na região central, viram nos morros a melhor opção para habitarem. Os indesejados foram retirados de perto do "cidadão de bem".

A aprovação da PEC 171/93 faz eco ás políticas de higienização urbana dos séculos XIX-XX, que desta feita já não expulsa os "indesejáveis" para os morros, mas sim para as prisões. Ali, no cárcere, sua falta de instrução e oportunidades, seu cheiro e sua cor, não afetarão aqueles que clamaram para a aprovação desta emenda. No cárcere eles não concorrerão com o filho do rico por uma vaga na Universidade ou no mercado de trabalho. E quando saírem de lá, haverá subempregos esperando por eles. É isso o que esperam aqueles que brindaram com champanhe Dom Perignon a mais recente derrota social brasileira. A nós outros resta prantear o mais infeliz dos Primeiro de Abril: aquele que veio mais cedo para nos fazer uma troça de mau gosto.