terça-feira, 1 de julho de 2014

O projeto de Patrícia Secco


Recentemente a escritora Patrícia Secco foi alvo de críticas devido sua iniciativa de tentar "facilitar" a leitura de obras clássicas brasileiras. Muitos se posicionaram contra esta postura, alguns dizendo que seu ato é mutilador e merecedor de cárcere [1]. Outros optaram por levar a iniciativa para o campo das disputas ideológico-partidárias afirmando que "não há limites para a demagogia e o populismo esquerdistas", uma vez que, segundo Secco, seu trabalho é direcionado aos "mais simples" [2]. Contudo, a escritora afirma que seu desejo é "simplificar a obra para que seja compreendida".

De igual modo, muitos teólogos se empenharam em reinterpretar, fazer novas traduções e contextualizar os escritos da Bíblia cristã para que os leitores do texto sagrado pudessem compreender a sua mensagem. Como teólogo de formação afirmo que o trabalho destes teólogos é muito importante. O texto Bíblico é um texto antiquíssimo e possui especificidades linguística, cultural, temporal e local distintos da maioria de seus leitores.

A um teólogo é necessário o domínio do básico das línguas da Bíblia para que se possa ler o texto em sua forma original, além de conhecer sobre o contexto dos escritos. No entanto, nem todo leitor comum possui o conhecimento necessário para ir ao texto em sua linguagem vernacular, sendo, assim, necessário que um profissional capacitado lhe ofereça um texto adaptado á sua realidade. Isso não descredibiliza o texto. Antes, agrega valor e novos pontos de vista de um texto que nos chama a interpretá-lo para melhor compreensão de sua mensagem.

O trabalho de Patrícia Secco deve ser visto como uma tentativa real de aproximação dos clássicos brasileiros do leitor comum que, em muitos casos, não possui vasto vocabulário ou é vítima do analfabetismo funcional. "Vítima", pois bem afirmou o educador Darcy Ribeiro quando disse que "a crise da Educação no Brasil não é uma crise; é um projeto".

A iniciativa de Secco é assemelha-se a de uma mãe pássaro que vai em busca de alimento, tritura-lhe e depois o dá em frações menores aos pequenos pássaros no ninho. De igual modo alguém poderia dizer que mãe pássaro está criando pássaros frágeis, que sua iniciativa é "populista" e ainda que isso cria dependência da mãe pássaro. Contudo, é sabido que em breve o pássaro cresce e vai em busca de seu próprio alimento.

Grande parte das críticas feitas são similares as que foram feitas quando surgiram as cotas universitárias para negros e estudantes do ensino público. São oriundas de pessoas que estão contentes com o status quo e não querem que o que lhes diferencia, de certo modo, seja compartilhado e obtido por aqueles a quem desprezam. Se não bastasse o controle e domínio dos meios de produção e riquezas da nação, eles pensam que a cultura também lhes pertence.

Que outras iniciativas como esta aproximem a cultura nacional de todos os brasileiros.

1- http://www1.folha.uol.com.br/colunas/cidadona/2014/05/1445858-escritora-muda-obra-de-machado-de-assis-para-facilitar-a-leitura.shtml
2 - http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2014/05/09/reescritora-de-machado-trata-pobres-como-incapazes-e-se-diz-horrorizada-com-as-elites-esquerdismo-e-isso/

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