quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

40 anos... o que celebrar?


Há muitos anos atrás ouvi um famoso líder evangélico de minha cidade fazer, insistentemente, a seguinte pergunta: "O que celebra nestes 100 anos, a Souza Cruz?". O homem que segurava o microfone lançava aos seus ouvintes os muitos dados negativos que a gigante brasileira do tabaco produziu ao longo dos anos: as mortes e doenças causadas pelo cigarro. É sabido que o cigarro é danoso a saúde e nada de bom traz para o corpo humano. Muitos de seus dependentes sofrem para abandonar o vício. Eu mesmo fumei muito quando adolescente e no momento que decidi parar, sofri para conseguir controlar a ansiedade por não fumar mais.

Contudo, aprendi com aquele famoso pregador a fazer perguntas em datas comemorativas e agora faço uma também: "O que celebrar nestes 40, 'famoso líder'?". Talvez você respondesse que as duas grandes sedes, com suas muitas salas, das quais muitas são alugadas para empresas comercializarem roupa íntima, comida, livros, artigos religiosos, viagens, concessionárias automobilísticas, além, é claro, dos templos suntuosos, com ar-condicionado, carpete importado, lustres que valem mais do que um carro zero km, etc. Ou talvez, falasse dos muitos lotes adquiridos no bairro de classe média alta, para servir de estacionamento para os "fiéis" ou por simples aglomeração de posses. Ou ainda diria que a escola particular que construiu com dinheiro dos membros, para mesmo depois de pronta, os membros continuassem a pagar mensalidades caras por um ensino parco. Ou quem sabe as muitas subsedes espalhadas pela cidade? Ou ainda celebraria o rol de "membros ilustres", jogadores de futebol, artistas, políticos - estes últimos, sempre movendo pauzinhos para lhe ajudar. Celebrar talvez as muitas campanhas feitas para arrecadar dinheiro de gente inocente e gente não-tão-inocente - também conhecidos como "gananciosos"? Ou talvez celebraria o enorme sítio com alojamento para mais de mim pessoas, com chalés, sauna, a gigante piscina, quadra poliesportiva, campos de futebol e um pequeno templo (ainda existe o templo? ou foi deixado de lado junto com a antiga casa de recuperação que ali havia?). Celebraria ainda os muitos outros pastores "famosos" que aí pregaram como Silas Malafaia, Marcos Feliciano, Mike Murdok, Morris Cerullo, Anthony Garotinho e tantos outros picaretas da fé? Ou celebraria a sua própria história, que para mim não se desassocia da sua igreja-empresa, de homem pobre que enriqueceu a ponto de seus filhos não pegarem no batente, mas ficam desfilando pela cidade com caminhonetes de 200 mil.

Ó famoso líder religioso das Gerias, eu lhe digo que a história da Souza Cruz não é muito diferente do traçado pela sua empresa. A empresa do tabaco enriqueceu vendendo uma droga lícita; você enriqueceu vendendo algo que foi transformado, por gente como você, em droga lícita. A empresa do tabaco vendeu seu produto por meio de propagandas que prometiam felicidade; você vendeu "seu produto" ao longo destes 40 anos prometendo felicidade sem limites e riqueza sem responsabilidade. A empresa do tabaco desfez famílias por diversos motivos; de igual modo, muitas foram as famílias despedaçadas pelo seu punho de ferro e arrogância sem fim. A gigante do tabaco, talvez, tenha demitido funcionários por não corresponderem com esperado por ela; Você, eu vi, demitiu, destituiu, humilhou diversos subordinados que, em certo ponto, não compactuaram com você e sua ideologia. A empresa do tabaco matou fisicamente muitas pessoas, ainda que indiretamente; Já você, eu vi também, fez várias vítimas e sepultou a espiritualidade de muita gente (sabe-se lá quantos foram). Apesar de todos os dados negativos a empresa do tabaco mantém sua estrutura e muitos ainda acreditam nas promessas de seu produto, mesmo que nas embalagens o Ministério da Saúde digam que aquilo não presta; Você líder religioso, apesar de muitos se afastarem de seus negócios escusos, falarem aos quatro ventos de seus feitos, além do "ministério dos Teólogos" lhe criticar, continua com seu império erguido e muitos lhe adoram e lhe seguem. A sua tristeza por a Souza Cruz passar de "pai para filho" e o comércio de cigarros se perpetuar, é sentida por este aqui, que também sofre por ver a sua empresa aos poucos ser passada de "pai para filha(o)". Por isso eu lhe pergunto famoso líder, "O que celebrar nestes 40 anos de sua empresa?".

Nenhum comentário:

Postar um comentário